Sábado, 8 de Agosto de 2009

A menina

Era uma vez uma menina,
Com sonhos
aspirações
e anseios
Tornou-se mulher
e continuou agarrada a eles
eram o seu alimento
matavam-lhe a sede
e aplacavam-lhe a dor
sonâmbula
caminhava
pela vida
que madrasta
a desenganava
e os sonhos
os anseios
as aspirações
com ela continuavam
sussuravam baixinho
e embalavam-na
dando-lhe esperança
Essa menina sou eu
e
continuo a sonhar

MIGUEL ESTEVES CARDOSO

Diz-me onde moras... Miguel Esteves Cardoso


"Um dos grandes problemas da nossa sociedade é o trauma da morada. Por exemplo, há uns anos, um grande amigo meu, que morava em Sete Rios, comprou um andar em Carnaxide.Fica pertíssimo de Lisboa, é agradável, tem árvores e cafés. Só tinha um problema. Era em Carnaxide.Nunca mais ninguém o viu.Para quem vive em Lisboa, tinha emigrado para a Mauritânia!Acontece o mesmo com todos os sítios acabados em -ide, como Carnide e Moscavide. Rimam com Tide e com Pide e as pessoas não lhes ligam pevide.Um palácio com sessenta quartos em Carnide é sempre mais traumático do que umas águas-furtadas em Cascais. É a injustiça do endereço.Está-se numa festa e as pessoas perguntam, por boa educação ou por curiosidade, onde é que vivemos. O tamanho e a arquitectura da casa não interessam. Mas morre imediatamente quem disser que mora em Massamá, Brandoa, Cumeada, Agualva-Cacém, Abuxarda, Alformelos, Murtosa, Angeja. ou em qualquer outro sítio que soe à toponímia de Angola.Para não falar na Cova da Piedade, na Coina, no Fogueteiro e na Cruz de Pau. (...)Ao ler os nomes de alguns sítios - Penedo, Magoito, Porrais, Venda das Raparigas, compreende-se porque é que Portugal não está preparado para entrar na Europa.De facto, com sítios chamados Finca Joelhos (concelho de Avis) e Deixa o Resto (Santiago do Cacém), como é que a Europa nos vai querer integrar?Compreende-se logo que o trauma de viver na Damaia ou na Reboleira não é nada comparado com certos nomes portugueses.Imagine-se o impacte de dizer "Eu sou da Margalha" (Gavião) no meio de um jantar.Veja-se a cena num chá dançante em que um rapaz pergunta delicadamente "E a menina de onde é?", e a menina diz: "Eu sou da Fonte da Rata" (Espinho).E suponhamos que, para aliviar, o senhor prossiga, perguntando "E onde mora, presentemente?", Só para ouvir dizer que a senhora habita na Herdade da Chouriça (Estremoz).É terrível. O que não será o choque psicológico da criança que acorda, logo depois do parto, para verificar que acaba de nascer na localidade de Vergão Fundeiro?Vergão Fundeiro, que fica no concelho de Proença-a-Nova, parece o nome de uma versão transmontana do Garganta Funda.Aliás, que se pode dizer de um país que conta não com uma Vergadela (em Braga), mas com duas, contando com a Vergadela de Santo Tirso ? Será ou não exagerado relatar a existência, no concelho de Arouca, de uma Vergadelas?É evidente, na nossa cultura, que existe o trauma da "terra".Ninguém é do Porto ou de Lisboa.Toda a gente é de outra terra qualquer. Geralmente, como veremos, a nossa terra tem um nome profundamente embaraçante, daqueles que fazem apetecer mentir.Qualquer bilhete de identidade fica comprometido pela indicação denaturalidade que reze Fonte do Bebe e Vai-te (Oliveira do Bairro).É absolutamente impossível explicar este acidente da natureza a amigos estrangeiros ("I am from the Fountain of Drink and Go Away...").Apresente-se no aeroporto com o cartão de desembarque a denunciá-lo como sendo originário de Filha Boa.Verá que não é bem atendido. (...) Não há limites. Há até um lugarchamado Cabrão, no concelho de Ponte de Lima !!!Urge proceder à renomeação de todos estes apeadeiros.Há que dar-lhes nomes civilizados e europeus, ou então parecidos com os nomes dos restaurantes giraços, tipo : Não Sei, A Mousse é Caseira, Vai Mais um Rissol. (...)Também deve ser difícil arranjar outro país onde se possa fazer umpercurso que vá da Fome Aguda à Carne Assada (Sintra) passando pelo Corte Pão e Água (Mértola), sem passar por Poriço (Vila Verde), e acabando a comprar rebuçados em Bombom do Bogadouro (Amarante), depois de ter parado para fazer um chichi em Alçaperna (Lousã).»
(Miguel Esteves Cardoso)

Segunda-feira, 26 de Maio de 2008




Imprimi sonhos


em pálidas folhas


desfizeram-se em poeira


levados por suave brisa


que me assolou


ganharam asas
livres


vagueiam


por aí

Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008




O silêncio esmaga-me


Oprime-me a vontade


É impressionante a força do vazio

Busca tentáculos que me asfixiam


Ganha intensidade na inércia que me rodeia


E é aqui que me apercebo
a verdade atinge-me
Nua e crua!

vagueio

perdi-me algures


ao longo deste percurso

Terça-feira, 13 de Novembro de 2007



Amar é respirar,


absorver e sorver sensações, sons, odores.


Amar é observar as pequenas coisas do mundo que nos alegram o coração e que nos deixam um brilho no olhar.


Amar é o florescer duma flor,


o cair delicado da água transformada em chuva,


é a tempestade que desaba e nos enche o corpo de arrepios e nos intoxica os sentidos.


Amar é.............................................................


dar e partilhar sem esperar receber!




Beijinhos brisa «intensa» de palavras!

Sábado, 10 de Novembro de 2007

Passado



Voltaste para me assombrar
tu
que jazias inerte
enterrado em lágrimas
e angústias
eregeste-te em sombras
e envolveste-me
derrubaste
as barreiras erguidas
transformadas agora
em diáfona poeira
sugaste-me as decisões
que abateram
como um castelo de cartas

Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

Perdi-me



perdi-me


deixei-me envolver por amarras


que suaves e ternas


me aprisionam


absorvi sensações


embrenhei-me em sentimentos


que neste palco


me empurram


na tua direcção


não consigo deixar de pensar


que somos meras personagens


expectantes do amanhã


instrumentos das nossas próprias decisões


prestes a escrever uma pauta


quem sabe harmoniosa


com muitos rascunhos até